Rondonistas na madrugada entregando os livros
Depois de uma caranguejada espetacular na Pousada do Sossego, feita pelo “Barão” Ramilton, fomos dormir e descansar na escola Inácio Raposo, onde estamos hospedados. Tínhamos que estar bem dispostos para realizar uma missão especial durante a madrugada.
Às 3h30 eu e as meninas já estávamos prontas para a ação. Os meninos demoraram um pouco mais, e às 4h30 todos estavam com vários livros nas mochilas e prontos para distribuí-los nas casas de Alcântara. Nós estávamos muito, muito, muito empolgados, mesmo tendo que andar pela madrugada por lugares desconhecidos. Fomos verdadeiros “anjos da leitura”, segundo a descrição da rondonista Larissa Glass.
Foram arrecadados aproximadamente 400 livros, por isso, não foi possível deixá-los em todas as casas. A intenção é fazer com que os moradores leiam e repassem os livros para outras pessoas, uma forma de trocar conhecimento através da leitura.
Entregar os livros durante a madrugada e saber que os moradores iriam acordar e encontrá-los na porta de suas casas, para mim, foi uma sensação indescritível. Além disso, outras experiências vividas por mim aqui na cidade, com certeza, irão marcar minha vida para sempre. Uma delas foi um passeio que fiz com a Larissa e o Raul, também rondonistas da Facinter, e com dois guias mirins, Bruno e David, que nos levaram a lugares incríveis e contaram histórias impressionantes da cidade, claro que com a magia da imaginação de uma criança. E em meio a tanta curiosidade do município o que me chamou a atenção foi a atitude de David.
Ele estava com a sola do chinelo quase arrebentando, andava pelas ruínas da cidade com dificuldade, tentando segurar o calçado no pé. Em determinado momento, pedi que ele e Bruno comprassem um doce típico daqui (doce de espécie), que por sinal estava uma delícia. O troco, cerca de quatro reais, deixei com eles. David ficou muito contente quando recebeu o dinheiro. Claro que como toda criança a vontade dele era de comprar bala, chicletes, ou algo parecido. Que nada! David foi correndinho até um armarinho e voltou com uma cola, sentou num meio-fio, e começou a colar o chinelo.
Eu olhei aquela cena e mais uma vez me encantei com o povo daqui. Como pode uma coisa tão simples para muitos tornar-se extremamente importante para alguns? Hoje em dia, na realidade em que vivo, uma criança nunca optaria em comprar um doce a um tubo de cola para consertar o chinelo, mas David fez isso. Aqui é assim, as pessoas dão valor às coisas simples da vida e são felizes. Não precisam de muito para dar um sorriso, um bom dia da janela de casa, um aperto de mão e um abraço quando se mais precisa. Confesso que é difícil não se emocionar. Ainda temos mais uma semana de trabalho com o projeto Rondon, mas a saudade já está apertando.
Texto: Juliana Rodrigues – Jornalismo
Foto: Larissa Glass
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